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O Brilho do Sangue na Tela

Matar é hediondo, repugnante? Pode-se valorar uma vida? Pode-se questionar o que é e o que não é vida? Não defendo assassinos, pelo contrário, considero assassinos todos aqueles que roubam vidas. Aqueles que roubam os sonhos de crianças em trabalhos degradantes, que roubam o convívio familiar em longas jornadas de trabalho ou que roubam a capacidade de indignar-se diante de tantas mazelas sociais também são assassinos. Escolho sempre a vida.

Sim, matar é hediondo. A espetacularização de um assassinato também. No livro Massa e Poder de Elias Cannetti, deparamo-nos com a questão: É mais assassino aquele que apunhala 50 vezes o corpo de uma mulher, ou aqueles 50 milhões que se aglomeram em torno dos televisores, jornais e revistas para saber todos os detalhes, até sentir o gosto de sangue na boca, e só depois, julgá-lo e culpá-lo? Os espectadores não se sentem responsáveis, nem pelo assassinato, nem pelo julgamento. Essa é a forma moderna do público que ia à praça de execução na Idade Média. A platéia é mais sádica, pois há mais informações; é mais globalizada, pois a mídia traz sangue de todos os lugares via fibras óticas e satélites, minuto a minuto e; torna-se cada vez mais viciada em sangue.

Da perspectiva do “cidadão de bem”, quanto mais ao centro da massa ele se posicionar, menor o risco de ser o próximo condenado. Quanto maior a massa e quanto mais ao centro, maior a sensação de segurança, maior a sensação de poder coletivo. Aqueles que vivem à margem da sociedade, ou por escolha, ou por exclusão, são candidatos ‘naturais’ à execução pública. Assim como os extremistas que são como bois de sacrifício, servem para satisfazer a necessidade de sangue dos espectadores. E se alguém abandona a praça de execução em torno da qual a massa se concentra, torna-se logo um excêntrico, de quem a massa logo espera um movimento em falso para acusá-lo. Por isso, aquele que tem medo sempre permanece no centro, não empunha bandeiras, não sai às ruas pra protestar, não escreve poemas.

Apesar das diferenças entre os indivíduos da massa, tudo que está lá no centro da massa é dito “normal”. Coisas boas e coisas ruins convivem no centro, são normais só porque são diferentes das coisas que os extremistas fazem. “Eu sonego o imposto de renda, todo mundo sonega, é normal!”. Assim, carneiros tornam-se lobos e lobos tornam-se carneiros.

Matar é hediondo, sempre. Se um indivíduo do centro comete um assassinato, então merece a execração pública e a massa vai procurar os porquês, até encontrar aquele detalhe que fazia do assassino um não-normal. Todo “cidadão” no centro da massa tem medo de identificar-se com o assassino, mas escolher sempre a vida não é fácil.

 

Comments

(Anonymous)

resposta (givepeaceachance)

li seu comentário no meu blog e vim agradecer e retribuir a visita. Adorei seu texto, concordo com seu ponto de vista e gostei mt da maneira como escreve. Vc escreve mt bem. ass: neylasouza

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