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Apr. 20th, 2008

retrato, selfportrait

A ovelha

Uma ovelha é presa por uma corda a uma estaca no pasto, conforme o desenho abaixo:

extraído do desenho "EF a tale of memories"

Qual a área do círculo formado?
Minha resposta mais que imediata baseia-se em conhecimentos matemáticos de ensino fundamental. Segundo teorias pedagógicas, utilizo minhas habilidades de abstração espacial e imaginando (algumas) condições de contorno não descritas no enunciado da questão, resolvo o "problema". O comprimento da corda é igual ao raio do círculo, cujo centro é dado pela estaca.
E a fórmula para resolver-se a questão inclui uma constante geométrica, cuja origem é interessante e, às vezes, bastante discutida em outros meios envolvendo religiões e ufologia. Enfim, a fórmula "diz" que a área do círculo é igual ao quadrado do raio multiplicado por PI.
Terminou aí?
Indo mais além...
Pelo desenho, poderíamos supor que a corda não é muito longa. Portanto, após determinado tempo, possível de se calcular a partir da velocidade média de alimentação da ovelha, todo o alimento disponível na área calculada terá terminado. Então, a ovelha morrerá de fome depois de comer até as raízes... pois a grama vai demorar pra crescer novamente.
Saímos de uma situação temporária, pois ovelhas não são criadas amarradas, para um cenário de perversão.
Então, por quanto tempo a ovelha ficará amarrada? Essa resposta pode determinar o comprimento da corda. Apenas isso é necessário? Que outras necessidades a ovelha exigirá em seu "cárcere"? Água... Sombra... Vamos imaginar que a ovelha permaneça amarrada por um longo período. As fezes da ovelha serão retiradas da área? No Brasil, com boas forrageiras e manejo adequado, calcula-se que cada cabeça de ovino exija aproximadamente 0,029 hectare, ou seja 290 metros quadrados. Vamos adicionar uma fonte perene de água e uma área sombreada e arredondamos, "mui generosamente", a área para 300 metros quadrados.
No entanto, é preciso considerar que o pasto não será verde durante o ano todo. Na época de chuva, a grama crescerá acima das necessidades da ovelha. Este excedente deve ser silado para a época de seca. E a forragem seca será o alimento da ovelha durante o período em que o pasto não estiver apropriado para suprir suas necessidades.
A estrutura de sombra e o cocho para alimentar o ovino não podem estar no centro do círculo, pois a corda poderia enrolar-se nestes obstáculos...
Feitas as considerações, comprimento da corda deve ser a raiz quadrada do quociente de 300 (metros quadrados) dividido por PI, que é aproximadamente 9,80 metros. Avaliamos informações disponíveis na internet para sair de um problema "literal" da matemática, para uma solução prática e de realização possível. Calculamos não apenas a área e o comprimento da corda em valores numéricos, mas fizemos considerações sobre a necessidade de pessoas que garantam o abastecimento de água, o manejo do solo nas épocas adequadas, a silagem e a oferta da forragem seca, as reproduções assistidas ou as inseminações artificias (se esta ovelha for uma matriz), a administração adequada de outros complementos que se façam necessários (vitaminas, vermífugos, vacinas...)
Viver num círculo de menos de 10 metros de raio, pra quê? A ovelha "produz" carne, leite (faz ótimos queijos) e lã. Produz entre aspas, porque somos nós humanos que coisificamos a ovelha, transformamos a natureza, cada mineral, vegetal e animal em coisas, em mercadorias para trocar por dinheiro. E pra ovelha, o dinheiro dos homens não importa. Ou importa? É o dinheiro que lhe garante a grama mais nutritiva, a água e a sombra mais fresca, os melhores remédios, até a seleção dos melhores genes. Olha quanta "qualidade de vida"!


foto by Tar.digital

A pomba inútil, sim, ela é muito mais feliz que a ovelha.

Apr. 8th, 2008

retrato, selfportrait

O Brilho do Sangue na Tela

Matar é hediondo, repugnante? Pode-se valorar uma vida? Pode-se questionar o que é e o que não é vida? Não defendo assassinos, pelo contrário, considero assassinos todos aqueles que roubam vidas. Aqueles que roubam os sonhos de crianças em trabalhos degradantes, que roubam o convívio familiar em longas jornadas de trabalho ou que roubam a capacidade de indignar-se diante de tantas mazelas sociais também são assassinos. Escolho sempre a vida.

Sim, matar é hediondo. A espetacularização de um assassinato também. No livro Massa e Poder de Elias Cannetti, deparamo-nos com a questão: É mais assassino aquele que apunhala 50 vezes o corpo de uma mulher, ou aqueles 50 milhões que se aglomeram em torno dos televisores, jornais e revistas para saber todos os detalhes, até sentir o gosto de sangue na boca, e só depois, julgá-lo e culpá-lo? Os espectadores não se sentem responsáveis, nem pelo assassinato, nem pelo julgamento. Essa é a forma moderna do público que ia à praça de execução na Idade Média. A platéia é mais sádica, pois há mais informações; é mais globalizada, pois a mídia traz sangue de todos os lugares via fibras óticas e satélites, minuto a minuto e; torna-se cada vez mais viciada em sangue.

Da perspectiva do “cidadão de bem”, quanto mais ao centro da massa ele se posicionar, menor o risco de ser o próximo condenado. Quanto maior a massa e quanto mais ao centro, maior a sensação de segurança, maior a sensação de poder coletivo. Aqueles que vivem à margem da sociedade, ou por escolha, ou por exclusão, são candidatos ‘naturais’ à execução pública. Assim como os extremistas que são como bois de sacrifício, servem para satisfazer a necessidade de sangue dos espectadores. E se alguém abandona a praça de execução em torno da qual a massa se concentra, torna-se logo um excêntrico, de quem a massa logo espera um movimento em falso para acusá-lo. Por isso, aquele que tem medo sempre permanece no centro, não empunha bandeiras, não sai às ruas pra protestar, não escreve poemas.

Apesar das diferenças entre os indivíduos da massa, tudo que está lá no centro da massa é dito “normal”. Coisas boas e coisas ruins convivem no centro, são normais só porque são diferentes das coisas que os extremistas fazem. “Eu sonego o imposto de renda, todo mundo sonega, é normal!”. Assim, carneiros tornam-se lobos e lobos tornam-se carneiros.

Matar é hediondo, sempre. Se um indivíduo do centro comete um assassinato, então merece a execração pública e a massa vai procurar os porquês, até encontrar aquele detalhe que fazia do assassino um não-normal. Todo “cidadão” no centro da massa tem medo de identificar-se com o assassino, mas escolher sempre a vida não é fácil.

 

Apr. 7th, 2008

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Mundo Flutuante

Em janeiro de 2007, acompanhei os trabalhos de 150 grafiteiros que cobriram o maior mural temático do mundo no túnel da avenida Paulista. Pelos jornais, soube que um dos coordenadores do projeto “Olhar Nascente” foi Walter Tada Nomura, o “Tinho”. Mas lá no túnel, eu só vi artistas gaijins participando dessa homenagem ao centenário da imigração, nenhum nikkei. Por que? Infelizmente, talvez seja porque o grafite ainda é visto como uma arte marginal, uma arte menor.

Eu vi apenas duas mulheres grafiteiras. Uma delas, sozinha, desenhava habilmente ondas enormes arrebentando-se umas contra as outras. Por trás das ondas, o monte Fuji e um sol estilizado. Essa imagem atiçava minha memória, “Já vi isso antes!”, mas minha ignorância em relação às artes visuais do Japão não me permitia localizar a obra original, nem seu artista. Algum tempo depois, descobri: a obra chama-se 神奈川沖浪裏 Kanagawa Ōki Nami Ura (A grande onda de Kanagawa) da série 富嶽三十六景 Fugaku Sanjū-Rokkei (36 vistas do monte Fuji) desenhada por 葛飾北斎 Katsushika Hokusai entre 1826 e 1833. Quem foi Hokusai? Pintor e gravurista, nasceu e viveu em Edo (atual Tokyo) de 1760 a 1849. Produziu mais de 30 mil obras e é reconhecido principalmente por essa série de xilogravuras do monte Fuji, que, na verdade, é composta por 46 peças (10 foram acrescentadas mais tarde).

A curiosidade aqui fica na relação entre as técnicas de Hokusai e daquela grafiteira do túnel. Alguns críticos de arte (daquela época e de hoje) desprezam a xilogravura e o grafite por serem “populares”. O grafite é a arte nas ruas, ninguém pode comprar, ela está lá pra todo mundo ver, de graça: não tem que pagar entrada de museu, não tem que dar o lance mais alto do leilão. A xilogravura é a arte de preço acessível: o artista entalha o desenho na madeira, passa as tintas e vai imprimindo as cópias, várias, seriadas ou não, limitadas ou não, enquanto a madeira resistir ao desgaste ou até a quantidade desejada pelo artista. Assim, Hokusai deve ter vendido dezenas, centenas ou milhares de reproduções da grande onda de Kanagawa.

Quem comprava as gravuras de Hokusai? As geishas da antiga Tokyo (Edo), que ainda não era a capital (apenas em 1869), e pequenos comerciantes que não tinham dinheiro para comprar telas pintadas, nem tempo para viajar e ver Fujisan. A Edo do shōgunato Tokugawa (1603-1868) tinha uma estrutura de entretenimento com muitos teatros de 歌舞伎 kabuki e de 文楽 bunraku (teatro de bonecos), alguns 相撲 土俵 sumō dohyō (arenas de sumō), muitas お茶屋 ochaya (casas de chá) e muitos 料亭 ryōtei (restaurantes luxuosos e tradicionais), onde geishas recebiam os 大名 daimyō (senhores feudais) e samurais. Enfim, um lugar leve, lascivo e alegre onde desenvolve-se a 浮世絵 ukiyo-e (pintura do mundo “flutuante”). Além de Hokusai, destacam-se outros dois gravuristas: 歌川広重 Utagawa Hiroshige e 喜多川 歌麿 Kitagawa Utamaro; suas gravuras retrataram os atores do Kabuki, as belas mulheres de Edo (美人 bijin, geralmente as geishas), os 力士 rikishi (lutadores de sumō) e os 名所 meisho (lugares famosos), como o monte Fuji. Na Restauração Meiji (1868-1912), as obras desses artistas chegaram à Europa e influenciaram (“le japonisme”) pintores impressionistas como Manet, Mary Cassatt, Degas, Pierre-Auguste Renoir, Monet, Camille Pissarro; os pós-impressionistas, Pierre Bonnard, Henry de Toulouse Lautrec, Vincent van Gogh, Paul Gauguin e Klimt; e no século XXI, aqueles 150 grafiteiros do túnel da paulista.

Mar. 4th, 2008

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Mercado de Trabalho: Falta de empregadores qualificados

As empresas abandonaram o “custoso” Estado de Bem-Estar Social europeu, globalizaram a produção e expandiram mercados. As emergentes economias de Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC) aparecem com destaques nos editoriais econômicos. A Índia tem muitos doutores nas ciências exatas, mas é socialmente desigual. A China tem mão-de-obra abundante e a Rússia tem grandes reservas naturais, porém são politicamente frágeis, segundo a visão “democrática” dos Estados Unidos. E o Brasil?

Classicamente, quando a economia cresce, o desemprego diminui se o desenvolvimento tecnológico não dispensar a mão de obra. Não falemos sobre curvas, limites e pontos de equilíbrios da econometria. Neste artigo, pretendemos estabelecer relações entre Economia, Trabalho e Tecnologia em busca de respostas ou de novas questões. Nos jornais, lemos “Há vagas, mas falta mão-de-obra qualificada”. Nas salas de aulas, ouço “Professor, vou sair da escola pra trabalhar”. Muitos adolescentes abandonam os estudos e aceitam subempregos para ajudar na renda familiar. E do ensino superior (degradado), jovens sem perspectivas saem do país para trabalhar como garçonetes, babás, operários...

Alguns fluxos migratórios são antigos, como os casos dos dekasegis e a cidade de Governador Valadares; mais recentes, Europa, Austrália e Oriente Médio também são destinos freqüentes. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, cerca de quatro milhões de brasileiros trabalham no exterior. Na internet, o Ministério do Trabalho disponibiliza a cartilha “Brasileiras e Brasileiros no Exterior” com informações sobre direitos trabalhistas e assistência social.

Seja do Morro do Chapéu na Bahia para os canaviais de Araraquara, de São Paulo para as fábricas de Nagano, ou de Governador Valadares para a construção civil de New Orleans, nossa força de trabalho está sendo tratada como coisa, ou até menos. Por que? O alumínio, o plástico, o papel e todo resto industrial valioso é reciclado e retorna como matéria prima. Por outro lado, depois de anos numa fábrica japonesa ou num canavial, debilitado, intoxicado e depressivo, o que resta ao trabalhador descartado?

Para manter a empregabilidade, o trabalhador precisa qualificar-se. Essa demanda desenvolve a indústria da Especialização: multiplicam-se escolinhas de informática, cursos executivos de pós-graduação e até mesmo SESI, SENAC e SENAI, que têm verbas federais, cobram mensalidades. Muitos cursos são precários e não devemos confundir políticas públicas de educação com essas fábricas de “qualificação”. Com currículos cheios de certificados, os trabalhadores são selecionados pelas agências de trabalho que os enviam para qualquer lugar do mundo. Hoje, algumas consultorias de RH assemelham-se a empresas do mercantilismo extrativista do século XVI. Como o pau-brasil, a borracha e o café de outros tempos, trabalhadores são arrancados de suas terras, transportados alhures e explorados até o pó nesse mercado global. Qual o custo social do desenvolvimento econômico?

Feb. 29th, 2008

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Meus compromissos de infância

Então, pra que Educação?

    Meu avô trazia do Japão relógios digitais, máquinas fotográficas e game watches. Além de histórias de fábricas cheias de robôs, aparelhos domésticos inteligentes e máquinas de comidas instantâneas nas ruas. Desde os nove anos, queria ser engenheiro pra fazer robôs para ajudar os outros. Fiz engenharia, estágios em laboratórios técnicos, em fábrica de carros e, quando me formei, fui trabalhar em banco. Eu não fazia robôs, mas ajudava as pessoas. Trabalhava para reduzir filas, facilitar o serviço de caixas e gerentes e criar atendimentos eletrônicos rápidos e simples. Logo depois, virei consultor. Passei a analisar e otimizar procedimentos financeiros de grandes empresas. Muitas viagens, hotéis de luxo, carros com motoristas, secretárias super eficientes, jantares de negócios, coquetéis, reuniões com presidentes de grandes empresas... Todo o sensual brilho do país da Cocanha que existe neste globo desigual.

    Enquanto meu propósito era facilitar o trabalho das pessoas, o objetivo das empresas era redução de head count. Eu desejava que as pessoas tivessem mais tempo para suas famílias, seus estudos e lazeres, mas as empresas queriam apenas reduzir custos. Qual é o objetivo de uma empresa? O LUCRO! Ou “agregar valor à sociedade”, por “valor” entenda-se dinheiro e por “sociedade”, stakeholders, que muitas vezes são apenas os acionistas. Enfrentei vários questionamentos. O salário da copeira, que tem dois filhos, não paga um dia da minha consultoria, isso é justo? Posso trabalhar em uma empresa cujo objetivo é contrário aos meus objetivos pessoais? Não e Não.

    Larguei tudo e voltei a estudar. Nas universidades estaduais de São Paulo, o custo médio de um estudante é de mais de vinte mil reais por ano. Somando meus cursos de engenharia e ciências sociais, foram onze anos e meio. Além do dinheiro público, “tirei” as vagas de outros dois jovens. Quais eram seus sonhos? Carregando essas dívidas morais, reaprendi a ver a vida. Chamaram-me de louco por deixar Cocanha, onde a vida é fácil e todos são felizes. Fui dividir meus conhecimentos em escolas estaduais, em assentamentos rurais e em projetos sociais para negros. Em aulas de matemática, filosofia ou história, fiz debates sobre meio ambiente, mercado de trabalho, sexualidade, preconceitos e discriminação racial, armas e violência, etc. Com meus alunos, aprendi que muito antes de robôs, precisamos de Educação.

    EDUCAÇÃO com letras maiúsculas que não é apenas a capacidade de ler, escrever e interpretar códigos, não é apenas um conjunto de conhecimentos para passar no vestibular, não é apenas a qualificação para o trabalho, não é apenas o gosto pelas artes clássicas... EDUCAÇÃO não é a troca que se dá só entre alunos e professores, não é o que acontece só nas escolas, não é aquilo que só se usa no dia a dia, não é algo que se conquista sozinho, nunca. Quem quer discutir o que é educação?

Feb. 21st, 2008

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Gaijin

Faltando alguns meses para as festas, o rebuliço na colônia japonesa já é grande para as comemorações do centenário da imigração japonesa. Na verdade, as festas já começaram. Morando em Araraquara e um pouco distante do clima festivo, coloquei-me duas questões: O que é ser “japonês” no Brasil? e Pra que comemorar essa imigração?

Recentemente, assisti o drama (ou o J-dorama) Haru to Natsu (ハル と ナツ) produzido pela NHK (no Brasil, apresentado pela TV Bandeirantes). Fugindo da pobreza, uma família parte para trabalhar no Brasil. A idéia era ganhar dinheiro e em poucos anos e voltar para Hokkaido, onde avó e filha mais nova ficaram. Esta família estaria nas últimas levas migratórias promovidas pelos governos do Japão e do Brasil; entre 1925 e 1934, mais de 120 mil japoneses chegaram ao Brasil. Em 1934, o Estado Novo de Getúlio Vargas restringe drasticamente a entrada de estrangeiros no país. Logo depois, com a II Guerra Mundial, a possibilidade de retorno diminui e os japoneses fixam-se definitivamente no Brasil. Ou a guerra foi apenas um pretexto? Algumas famílias, sem dúvida, conseguiram prosperar com fazendas, comércio, ou pequenas indústrias, elas largariam tudo no Brasil para voltar? Outras famílias, a maioria, estavam trabalhando quase como escravas nas fazendas de café e algodão de São Paulo e não enriqueceram. Envergonhadas, voltariam? De um jeito ou de outro, ficamos.

Neto de japoneses, sansei, o que resta de japonês em mim? Um sansei pode falar de nihonjinron? Ler as revistas da Seicho-no-ie, fazer alguns origamis, comer sushi usando hashi e assistir anime, um monte de brasileiros também faz. Jogar um pouco de shogi e hanafuda, não achar nojento um mata-moscas (はえたたき), usar mimikaki no lugar do cotonete, saber usar o soroban (ábaco), dormir em futon, comer nattô e perceber o quanto é difícil traduzir palavras triviais como sumimasen, taihen ou gambatte já é pra poucos... Então, sou nihonjin?

Em 2008, também poderíamos comemorar 25 anos (aproximadamente) da emigração de Dekasegis Nikkeis Burajirujins. A partir da década de 1980, nisei, sansei e yonsei começaram a “retornar” ao Japão com as mesmas intenções de seus ancestrais: trabalhar, enriquecer e voltar. A história está se repetindo às avessas? Estamos fechando um “ciclo”? Somos fisicamente parecidos com os japoneses, a cultura japonesa não nos é totalmente estranha, mas mesmo assim, somos gaijin’s no Nihon. E aos gaijins (pejorativamente mesmo) restam os trabalhos 5K’s: Kitanai (sujo), Kiken (perigoso) e Kitsui (penoso), Kibishii (exigente) e Kirai (detestável). Por que? Porque o Japão do século XXI não tem nada a ver com o Brasil do início do século XX. O Brasil é a terra dos imigrantes, sempre. Já o Japão nunca havia recebido tantos imigrantes antes dessa onda migratória de dekasegis: já somos mais de 250 mil lá! Será que em uma ou duas gerações, os “brasileiros” no Japão serão reconhecidos e valorizados assim como a colônia “japonesa” é no Brasil?

Nossos avós sofreram bastante no início do século XX logo que chegaram ao Brasil: preconceito, dificuldades de adaptação ao clima, à alimentação, etc. Graças ao sucesso de algumas (não todas) famílias, hoje é mais “fácil” ser nihonjin no Brasil. Temos orgulho de nossas origens e comemoraremos o centenário da imigração. Mas lá no fundo... Coração brasileiro ou nihonjin no kokoro? Taihen, né?

Leia mais na internet: “Nos subterrâneros do modelo japonês” e “Tecelagem da vida com fios partidos” de Fábio Kazuo Ocada; “O Jogo da diferença” e “A Imigração para o Japão” de Elisa Masae Sasaki; “Foreign workers in Japan” de Natali Garcia-Diaz; “The making of a minority in Japan” de Daniela de Carvalho.

Feb. 20th, 2008

retrato, selfportrait

Utopia, eu quero uma pra viver!

É sonho ingênuo. Acho que ainda não 'cresci' .
A Cocanha é sonho de criança?

No entanto, a Cocanha... eu já estive lá também!
E voltei, sim! Fugi de Cocanha!
Porque não quis ficar lá, não sentia-me bem.

Na minha visão Realidade-Utopia, a Cocanha é 
mais parecida com a bárbara atualidade.
Loucura é não perceber a Cocanha atual...

Le Fabliau de Cocagne

Escute agora quem está aqui.
(...) Não tenho muita idade, mas
Nem por isso sou menos sábio.
Uma coisa devem saber:
Barba grande não significa saber;
Se os barbados fossem sábios
Bodes e cabras também o seriam.
(...) Agora ouçam como são
Os habitantes daquele país.
Creio que Deus e todos seus santos
Abençoaram-na mais
Que qualquer outra terra.
(...) Lá quem mais dorme mais ganha;
Quem dorme até meio dia
Ganha cinco soldos e meio.
De barbos, salmãos e sáveis
São os muros de todas as casas;
Os caibros lá são esturjões,
Os telhados de toicinho,
As cercas são de salsichas.
Existe muito mais naquele país de delícias.
Pois de carne assada e presunto
São cercados os campos de trigo;
Pelas ruas vão se assando
Gordos gansos que giram
Sozinhos pelas asas, regados
Com molho branco de alho;
Digo ainda a vocês que por toda parte,
pelos caminhos e pelas estradas,
Encontram-se mesas postas
Com toalhas brancas,
Onde se pode beber e comer
Tudo o que se quiser sem limites;
(...) As pessoas lá não são vis,
São pelo contrário virtuosoas e corteses.
Seis semanas tem lá o mês,
Quatro Páscoas tem o ano,
E quatro festas de São João.
Há no ano quatro vindimas,
Feriado e domingo todo dia,
Quatro Todos os Santos, quatro Natais,
Quatro Candelárias anuais, Quatro Carnavais,
E Quaresma, uma a cada vinte anos.
(...) O país é tão rico
Que bolsas cheias de moeda
Estão jogadas no chão;
As mulheres dali, tão belas
Maduras e jovens,
Cada qual pega a que lhe agrada,
Sem descontentar ninguém.
Cada um satisfaz seu prazer
Como quer e por lazer;
Elas não serão por isso censuradas,
Serão mesmo muito mais honradas.
(...) Há ainda outra maravilha,
Vocês jamais ouviram coisa semelhante:
A Fonte da Juventude
Que rejuvenesce as pessoas,
Além de outros benefícios.
Lá não haverá, bem o sei,
Homem tão velho ou tão encanecido,
Nem tampouco mulher que,
Tendo cãs ou cabelos grisalhos,
Não volte a ter trinta anos,
Se à fonte puder vir;
Lá se pode rejuvenescer
Desde que se more no país.
Certamente é muito louco e ingênuo
Quem pôde entrar naquela terra,
E de lá saiu.
Eu mesmo o sei,
Posso entender isso muito bem.
Pois fui louco
Quando de lá saí...




ed. V. Väänänen. Neuphilologische Mitteilungen 48, 1947, p.3-36 . 
Tradução (não publicada): Hilário Franco Júnior
poema completo, traduzido para o inglês no site
http://www.soton.ac.uk/~wpwt/trans/cockaygn/coctrans.htm

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Jan. 30th, 2008

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Recessão Americana vs. Responsabilidade Socioambiental

A retração do mercado estadunidense é ruim para a economia mundial?

Sinais de desaceleração do crescimento da economia nos Estados Unidos são interpretados pelo mercado financeiro como “brutal”, “grave”, “doloroso”, entre outros adjetivos que provocam em nós um sentimento de compaixão pelo “doente” mercado americano. A identificação dos sintomas é praticamente unânime: os sinais de recessão dos Estados Unidos provocam dolorosos efeitos negativos nas economias do mundo inteiro. Por isso, além da simpatia pela fragilidade da saúde da combalida economia, há o medo de contágio, o receio de uma epidemia global. 

Há economias que se declaram “imunes”, “descoladas”, “blindadas”. Até agora falamos apenas dos sintomas, mas qual é o diagnóstico? Qual é a doença que estamos enfrentando? Diagnosticada a doença, qual o tratamento a ser indicado? P
oderíamos dar vários nomes a essa doença sistêmica globalizada – nomes carregados de eufemismos que diluem a discussão das raízes da doença –, ou apenas um, porém, acusariam-nos de terroristas ou coisa pior. Portanto, seja qual for o nome da doença, escrevemos este artigo com objetivo de questionar: pra onde vai a Responsabilidade Socioambiental das Empresas em momentos de instabilidade econômica? RSE é “artigo supérfluo” e pode ser descartado em momentos de “necessidades”? Não? 

Muitos dos colegas responderão que a RSE, hoje, é fundamental para o desenvolvimento sustentável do país, do mundo, da humanidade e da própria empresa; e que a RSE não pode ser abandonada em momento algum, nem nas piores crises, visto que é a iminência de um cenário de insustentabilidade socioambiental que nos move a adotar visão e atitude mais responsáveis. E
ntão, qual o tratamento da doença? 

O primeiro remédio ministrado pelo Federal Reserve foi o maior corte da taxa de juros desde 1984. O objetivo é aliviar o financiamento das dívidas (do cartão de crédito, da hipoteca da casa, do financiamento do carro, etc.) para estimular o consumo. Dizem, mas será verdade? No Brasil, quando o Banco Central reduz a SELIC, os juros do crediário também baixam? De um jeito ou de outro, a economia do mundo todo mostra-se suscetível ao nível de consumo dos americanos. 

Na verdade, as bolsas de valores, muito mais do que a banca de carne seca de Dona Josina no sul da Bahia. Em outras palavras, “Mercado de Ações” não é o mesmo que “Economia”. Com 81 anos, a mesma idade de Alan Greenspan, Dona Josina mora em uma casa de taipa iluminada por um candeeiro a querosene, cuja luz revela alguns retratos pintados a mão sobre as prateleiras de tábuas. Em recessão ou não, o “consumidor médio americano” não é aquele que consome muito mais gasolina que a média mundial? Mais energia elétrica? Mais plástico, aço, papel? Mais comida, água, roupas? Seria possível um mundo em que nossas Donas Josinas pudessem consumir tanto quanto Mr. Greenspan? Se a estabilidade da economia depende da manutenção do insustentável consumismo americano, então não haverá cultura de RSE que consiga garantir a preservação do meio ambiente, nem a justiça social. E
is que propomos um novo diagnóstico e um novo tratamento profilático para evitar o amargor de remédios cada vez mais agressivos. 

Estamos diante de um quadro de readequação de mercados, cuja novidade é a descentralidade da economia americana, devido aos fortes crescimentos de China e Índia. No primeiro momento, as bolsas reagem caoticamente com muita volatilidade. Mais tarde, ganhos inimagináveis vislumbram-se para as empresas que estiverem mais ajustadas às demandas daqueles mercados em expansão. E aqui inicia-se o novo tratamento profilático, caso contrário, veremos a repetição da história. O “cultivo” de RSE precisa intensificar-se e ampliar horizontes. O apelo racional técnico, conveniente ao empreendedorismo americano, precisa encontrar alguma ressonância com o confucionismo e o hinduísmo. Ou China e Índia rejeitarão os fármacos ocidentais do XXI e copiarão exatamente a mesma receita desenvolvimentista do XX? Antes de acusá-los pela irresponsabilidade, pela ganância, pela falta de escrúpulos, nós mesmos precisamos questionar se a única “saída” para esta recesssão é o aumento do consumo, seja o americano ou o chinês.

Oct. 11th, 2007

retrato, selfportrait

Katharsis

jornal, mural, virtual, esporádico, sem-números, que não pretende nada, que não entende nada, que tem dúvidas, que não precisa ser lido, que se prostitui, que não sente, não ouve, não pensa 

PALAVRAS. s.f.plural ~repetidas; ~não-ditas; ~malditas; ~significativas; ~intermediadas; ~propositais; ~afirmativas; ~questionadoras; ~eróticas; ~políticas; ~orientadoras; ~ideológicas; ~ilógicas; ~moralistas; ~sem nexo;  ~coercitivas; ~de mãe; ~primeiras; ~duras; ~repetidas à exaustão; ~essência; ~(des|cons)truidoras; ~-ação; ~concretistas; ~surreais; ~por~; ~sedutoras; ~de alguém; ~do povo; ~que não constam no dicionário; ~hifenadas; ~sôfregas; ~imortais; ~vendidas; ~corrompidas; ~abreviadas; ~despropositadas; ~originais; ~de Gertrude; ~santas; ~utópicas; ~mitológicas; ~revolucionárias; ~de perdão; ~banais; ~chulas; ~de jardim; ~responsáveis; ~que ecoam

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